
Votuporanga, quarta-feira, 08 de fevereiro de 2012 Dr. Valdivino Pina
Docente do Curso de Letras
A MODERNIDADE NO DISCURSO MACHADIANO
Filho de pessoas humildes, Machado de Assis não freqüentou regularmente uma universidade, no entanto, foi tipógrafo, poeta, dramaturgo, contista, cronista, romancista, crítico literário, presidente da Academia Brasileira de Letras e um dos maiores gênios da literatura brasileira. Observador arguto da alma humana, fez com que sua obra assumisse uma posição transtemporal, ao mesmo tempo em que formalmente antecipou vários procedimentos estilísticos que marcariam, por assim dizer, o início do romance moderno.
Em Memórias póstumas de Brás Cubas, abandona a postura de pacto social que assumiu na primeira fase (Ressurreição; Helena; A mão e a luva; Iaiá Garcia) e passa a pena para o “senhor”. Brás Cubas é um proprietário de escravos, um parasita social, de quem todos dependem a partir do qual pode-se perceber que, antes e depois da escravidão, a sociedade brasileira estava longe de ser igualitária.
Brás Cubas nasceu numa família abastada e sua formação foi determinada pela situação dessa família escravista (começa andando a cavalo em um escravo, um menino, que lhe deram para essa finalidade). Jovem, gastou uma fortuna com uma prostituta (Marcela); o pai envia-o à Europa para estudar. No entanto, o estudo é uma forma de obter apenas uma casca de civilização, conforme ele mesmo admite: “a universidade me atestou em pergaminho uma ciência que eu estou longe de trazer arraigada em meu cérebro”. De volta ao Brasil, teve um longo caso amoroso com Virgília, esposa de Lobo Neves. Quando o amor acaba e eles se separam, envolve-se em política, tenta a carreira científica (a criação do “Emplasto Anti-hipocondríaco Brás Cubas”) e morre antes de realizar qualquer dos projetos a que se tenha dedicado. Seu único ponto positivo, segundo afirma no último capítulo, foi não ter tido filhos, pois assim não transmitiria a ninguém a herança da sua miséria, como ser humano medíocre que foi.
É a partir desse enredo que o narrador Brás Cubas fala do ser humano em escala enciclopédica: dos primórdios da humanidade até o final dos tempos, dos tempos bíblicos até a modernidade, passando pela Revolução Francesa. Reflete sobre filosofia, política, religião e arte, este último o elemento mais importante aqui, a nosso ver. enredo, no entanto, é apenas um pretexto para que Brás Cubas, um típico proprietário à maneira do século XIX, escravista, clientelista, antecipe através do seu discurso preceitos estéticos que marcariam a literatura moderna.
A modernidade machadiana explicita-se nos seguintes elementos: quebra da linearidade (as ações não obedecem a uma sucessão cronológica, mas a uma disposição interior); metalinguagem (o narrador comenta com o leitor a escrita do romance, fazendo-o assumir uma postura ativa na elaboração da narrativa); digressões (o narrador interrompe a narrativa e divaga sobre os mais variados assuntos); ironia, humor negro (expõe a miséria física e moral de seus personagens); caráter não discursivo (o narrador abstém-se de discorrer sobre um determinado assunto, embora o faça explorando traços supra-segmentais ou a disposição gráfica das palavras, como nos capítulos “O Velho Diálogo de Adão e Eva”, “Epitáfio” e “De Como Não Fui Ministro D’Estado”); densidade narrativa (a ação e o enredo perdem importância para a caracterização dos personagens, uma vez que o menor gesto, uma fala são significativos na construção do quadro psicológico); sátira menipéia (presença de um narrador-personagem cínico, de um enredo disposto de forma não linear e de um filósofo que expõe a loucura humana, como é o caso de Quincas Borba).
Convém lembrar, no entanto, que a linguagem machadiana não possui a oralidade, o coloquialismo e as incorreções gramaticais que marcaram o discurso dos escritores modernos, sobretudo os da “fase heróica” (1922-1930). Machado de Assis prima pela disciplina, pela concisão, pela correção gramatical. Diferente de Flaubert que defendia a teoria do “romance que se narra a si próprio”, o “Velho Bruxo” (expressão carinhosa de Drummond) intromete-se na narrativa, fazendo-nos perceber no narrador Brás Cubas as reflexões do escritor Machado de Assis.
Dr. Valdivino Pina Docente do Curso de Letras
INSTRUMENTALIZAÇÃO DA LINGUAGEM E REGIONALISMO UNIVERSALIZANTE EM PRIMEIRAS ESTÓRIAS, DE GUIMARÃES ROSA
A obra de Guimarães Rosa implica uma alteração significativa na maneira de nos relacionarmos com a palavra, aqui explorada em todas as suas potencialidades, ao mesmo tempo em que explora um novo conceito de regionalismo.
Primeiras estórias compõe-se de 21 narrativas curtas. O próprio título já aponta para um processo de originalidade, uma vez que o autor experimenta um novo gênero: a estória. Em um dos prefácios da obra Tutaméia, Guimarães Rosa assim o define: “A estória não quer ser história. A estória, em rigor, deve ser contra a História. A estória, às vezes, quer-se parecida anedota”.
A circularidade com que o autor constrói as narrativas é um outro aspecto importante a ser notado: a primeira e a última estória têm o mesmo protagonista, um “menino”. Em “As Margens da Alegria” (primeira narrativa), o “menino” parece alegorizar um novo tempo, viaja de avião para a casa do tio e, em companhia deste, encanta-se com a construção de uma grande cidade (Brasília, ao que tudo indica). Na última narrativa, “Os Cimos”, o protagonista retorna à casa paterna, deslumbrado com o que descobriu nessa “viagem”; trata-se de um momento de “epifania” (revelação) ao experienciar a alegria, a tristeza e o amor.
Os demais contos constituem uma variedade de temas e tons (lírico, épico e filosófico); o que os aproxima é o experimentalismo lingüístico, é como se a língua estivesse em processo de formação. O autor, intencionalmente, procede abolindo as diferenças entre poesia e prosa, explorando abundantemente os recursos da expressão poética: ritmo, aliterações, assonâncias, onomatopéias, elipses, hipérbatos, regionalismos, arcaísmos e neologismos.
Na coletânea em questão, segundo Paulo Rónai e Mary Lou Daniel, encontramos os seguintes processos de invenção verbal: aglutinação de palavras (“equiparado”: cavalo + parado; “tutânico”: tutano + titânico; “enxadachim”: enxada + espadachim); palavras que permutam de classes gramaticais (“Desço em pulos passos”: substantivo usado como advérbio); ênfase através de repetições (“Infância é coisa, coisa?”); permutação de tempo e modo verbais (“Nem olhasse mais a paisagem”: imperfeito do subjuntivo usado como futuro do pretérito); uso de artigo definido antes de pronomes indefinidos (“as muitas pessoas”); associação entre som e sentido __ aliteração e assonância (“Miúdo, moído”, “leigos, ledos, lépidos”); desarticulação ou desvios sintáticos (“A gente fica quase presos, alojados na cozinha”: silepse de número); uso do anacoluto (“Tia Liduína, que durante anos de amor tinham-na visto sobre sofrer... Tia Liduína, que já fina música e imagem”); inversão de lugares comuns ou frases feitas (“a menos não poder”, “com nenhum titubeio”, “E era o impasse da mágica”, “Um deus-nos-sacuda”, “o feio está ficando coisa”); citação ou criação de provérbios sertanejos (“De pobre não me sujo, de rico não me emporcalho”, “Para o pobre, os lugares são mais longe”); prosa rimada na forma de pares justapostos (“E entrou __ de peito feito”, “Moço esporte de forte”); repetições múltiplas para provocar intensidade emocional (“E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão”); criação de novos substantivos abstratos (“nãoezas”, “vislumbrança”, “soência”); flexão de palavras invariáveis (“quasinho”, “quasesinho”); verbos formados a partir de adjetivos (“cabisbaixara-se”, “malcriou”); abrasileiramento de palavras (“capisquei”: do italiano “capire”, compreender; “esmarte”: do inglês “smart”, esperto).
Em se tratando do regionalismo, Guimarães Rosa o torna universal. Se o regionalismo romântico (José de Alencar) era pitoresco, se o regionalismo de 1930 (Graciliano Ramos, Raquel de Queirós, José Lins do Rego, Jorge Amado) era crítico social, Guimarães Rosa, ainda que extraia do sertão mineiro sua matéria prima, afirma que “o sertão é o mundo”, é uma forma de aprendizado, isto é, a partir dele, podemos refletir sobre temas transcendentais, universais. Assim, temos os seguintes núcleos temáticos: a viagem como forma de contemplação e descoberta (“As Margens da Alegria”; “Os Cimos”), a loucura mesclada à violência, à valentia e à solidariedade humana (“Famigerado”; “Os Irmãos Dagobé”; “Fatalidade”; “Sorôco, Sua Mãe, Sua Filha”), a sabedoria e a mágica da inocência infantil (“A Menina de Lá”; “Pirlimpsiquice”; “Partida do Audaz Navegante”), a escavação da essência, do inconsciente, a busca da transcendência (“A Terceira Margem do Rio”), a loucura mística ou metafísica (“Nenhum, Nenhuma”; “O Espelho”; “Um Moço Muito Branco”; “Nada e a Nossa Condição”; “O Cavalo que Bebia Cerveja”; “A Benfazeja”; “Darandina”; “Tarantão, Meu Patrão”) e a (re)descoberta amorosa (“Luas-de-Mel”; “Seqüência”; “Substância”).
Em suma, Primeiras estórias reflete o mundo sertanejo, povoado de crianças, jagunços e animais, transformado pela magia da linguagem. Esse sertão, no entanto, não se restringe aos limites geográficos brasileiros, mas sim revela-nos o homem com suas crenças, medos, limitações e sobretudo seu desejo de transpor os limites entre o humano e o sagrado.

